Tem Dia Que é Absortitude
Tem dia que dá um aperto no peito e o coração só quer lastimar.
Tem dia que bate aquela carência e ao mesmo tempo a vontade de só estar.
Tem dia que a gente caminha e não sabe como deu o passo e dia que esquece mesmo a chaleira no fogo e a água do filtro a encher a jarra até transbordar.
Tem dia que a gente finge que não ouviu nada e tem dia que a gente finge que nada viu.
Tem dia que não dá vontade de falar e dia que a gente só escolhe não lembrar.
Até dá para se questionar se ainda estamos vivos ou se só estamos seguindo para qualquer lugar. Mas por mais absurdo que isso pareça, não é sobre estar sem propósito ou sem destino para seguir, mas sim sobre saber selecionar. Porque tem pessoas que não valem a pena o desgaste, tem situações que não fazem sentido perder a cabeça; tem briga que se briga sozinho, tem atitude que não se alimenta e tem sentimento que não adianta de nada pensar.
Aí, entre a dor da espera e o sofrimento que a ansiedade oferece de graça, a alma da gente escolhe filtrar e o resto ela deixa anestesiar, só para amortecer os nervos mas sem deixar de enxergar.
E é incrivelmente fantástico não sentir absolutamente nada além de uma imensa absortitude ao se deparar com as ardilosidades alheias miradas para as nossas cabeças, como flechas envenenadas e intencionalmente certeiras. Enquanto as palavras se desenlaçam bem diante dos nossos olhos e a respiração é o pulsar dos nossos corações, hipnóticamente concentrados naquele espaço de tempo que uns juram passar sutilmente por nós, é que o tempo desacelera e percebemos, mais claramente ainda, a tal flecha da morte em nossa direção se lançar.
É muita disposição para envenenar e esmagar; mas a dita cuja só camufla a imensa miséria interior dos ardilosos, enquanto que eu sigo esquivando em vibrantes bailares.

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