A Carne de um Desejo

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Fonte: Pinterest

Desejo Ardente


Não saberia dizer quando começou todo aquele turbilhão de sinestesia, apenas constato que deleitava-me naquelas sensações ébrias que faziam-me aventurar por mundos desconhecidos como se fosse um sonho. Eu era personagem real mas também encontrava-me como expectadora de um espetáculo que não parecia nada surreal. 

A imagem surgiu como a chuva que deságua num repente, tão intensa e imprevista que provocou a minha reação retardada, ou então, a não reação. Fiquei estática, como uma escultura grega que tudo vê e ouve, porém nada fala ou faz. Meu corpo pulsava de uma maneira que nunca havia sentido e um desejo ardente invadia-me como se eu fosse a qualquer momento avançar em cima daquele ser carregado de uma força magnética que eu não entendia. Aquele falar sem nenhuma palavra, sequer um suspiro, apenas o olhar fixo querendo dizer um milhão de coisas inauditas. 


Ambos nos aproximávamos, sem nem ao menos disso nos apercebermos, e então eu senti, colado ao meu corpo, um membro insaciável de presença voluptuosa imensa, como se fosse um monstro esfomeado em seu exílio quase eterno, embora cedendo aos poucos a um quase inabalável orgulho. 

E eu, eu parecia uma fera – uma súcubos, pronta para atacar sem dó e sem escrúpulos. 

Tudo dentro de mim aflorava como o sangue de uma apunhalada mortal.

Eu queria aquele corpo provido de alma, tão sublime. Eu queria aquela face delicada e encantadora. Enlouqueci de um prazer absoluto sem de fato senti-lo e isso foi o suficiente para que eu esquecesse quem era e onde estava. Ataquei-o velozmente com meus lábios famintos, sem pausas, sem tempo para que pudesse respirar. Não deixei resquícios de pensamentos sóbrios, eu queria jogá-lo no abismo dos meus desejos e possuir tudo aquilo o que já era meu por direito e por carma. 

Por destino. 

De repente, tudo some e o ar fica tão seco quanto o próprio deserto. 

Abro os olhos e uma onda de desgosto percorre minha alma. 

Frustrada, lanço meu olhar para o lado e vejo que o relógio marcava que eu ainda estava em tempo hábil. Realmente eu não estava atrasada como eu gostaria de estar naquele momento.


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